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Limbo

21.03.2017

E essa música transita em diversos momentos, ela vai e vem. Às vezes se instala por meses, outras escapa por ilusões passageiras. Mas acaba voltando, volta meia rondando, feito pião de uma infância pra lá de perdida que nem foi minha. 

E é tão triste, é um limbo entre as decepções da vida. 

Ao mesmo tempo uma  esperançosa, um chamado por "qualquer coisa que se sinta".

E quem não sente e sabe escrever, inventa.

Hora de criar...

Romeu acordou com o despertador, atrasado para o trabalho, onde tem uma reunião importante. Esqueceu de passar no barbeiro, escovou os dentes as pressas, passou o resto do gel, vestiu branco, afinal era sexta-feira, dia de Oxalá para todo baiano. Conseguiu pegar um carro rápido naquele app que vive travando. Esqueceu de dar comida pra o cachorro, voltou. Alimentou o cachorro, partiu, esqueceu a pasta, voltou, resgatou. Amou aquela de lama que pisou, voltou, trocou, agora seu sapato era cinza e não mais marrom; Até o carro era cinza, seu prédio, sua camisa, cueca... ele era um homem cinza. Já podia ver até alguns fios brancos no cabelo, mas isso não era o mais importante. Enquanto andava naquele carro percebia o quanto cinza era sua vida. Ele não sabia mais o significado daquele frio na espinha, se o medo de não ser promovido ou o de ser promovido. Afinal de contas, o que ele queria da sua vida? Surfar! Quando iria conseguir pegar uma onda novamente? Riu de si mesmo, ele nunca pegou onda alguma, só jogou charme de surfista naquele verão que conheceu Kátia. Como ela era engraçada. Há quanto tempo não vê mais aquelas gargalhadas, Kátia também se apagara. Se ele era o Sr. Cinza, ela também se tornara a mulher Cinza. O que fizemos da nossa vida Kátia? - gritou em pensamento estridente capaz de quebrar os vidros daquele carro. Repentinamente sentiu vontade de agarrar aquela mulher de novo com a mesma gana de quando a conheceu. E se ele fizesse uma surpresa no trabalho dela? Usasse um pouco da poupança dos filhos para uma viagem inesperada, um sequestro repetindo da própria mulher. Quem pagaria as contas? quem ficaria com as crianças? Ele foi entristecendo, amarrado no seu mundo cinza, uma rotina que ele nunca acreditou que teria. Mas aquela poça de lama no meio do caminho, lhe fez recordar o tempo de menino, em que podia brincar no pátio com os amigos, acampar em barracas, pegar chuvas de madruga, dançar com uma menina amada. Tempos bons de amores platônicos, em que pegar na mão o fazia tremer todo, e o medo de tirar pra dançar?

O carro chegou Romeu precisava descer mas não queria mais, passaria mais duas horas com suas memórias. Desceu com pé direito, afinal ele era um homem de 30 anos, tinha uma vida adulta, uma família pra cuidar e a louça era dele naquela sexta-feira quando chegasse em casa, torcia para que as crianças não tivessem deixado nada muito sujo, mas isso era quase um sonho e nada premonitório. Romeu desceu, entrou naquele prédio do seu trabalho que mais parecia uma prisão, sentiu-se com um certo ataque de pânico, tudo lá parecia terrivelmente cinza, só não tanto quanto ele mesmo.

Romeu queria amar de novo a mesma mulher, queria sentir-se vivo. Ele parecia mais um zumbi daqueles filmes que seus filhos assistiam. E lá estavam os pinguins, ops seus chefes o aguardando, mas eles pareciam pinguins gays, porque afinal de contas só tinha homem naquela sala, as mulheres só entravam para trazer papéis, cafés. Fato que ele odiava ver, afinal ele tinha duas em casa e pensar que o futuro da própria filha poderia ser numa posição de submissão lhe dava ânsia de vômito. Abriam o painel e começaram a passar aqueles cansativos slides sem sequer uma doce voz feminina para contrapor aquelas ideias repetidas. E quando perguntassem a sua opinião o que diria o mesmo tanto faz de sempre? Afinal que vida era aquela que eles todos levavam? Quanto tempo perdido, poderiam estar todos numa linda aldeia, no meio de uma caverna, mergulhando em Bonito, poderiam estar plantando orgânicos, trocando caças ou vegetais. Poderiam estar construindo casas sustentáveis e não tantos prédios onde mal de pode ver a cor verde. Romeu começou o dia pisando na lama e aquela lama parecia agora lhe salvar. Lembrou dos prédios suíços e suas áreas verdes que ocupavam todo o prédio, a economia de energia solar, o aproveitamento da água da chuva, o óleo de cozinha. E pegou a sua pasta fechando-a com força chamando atenção de seu chefe. E lá estava ele aquele frio na espinha de novo, seria ele um lobisomem? um homem das cavernas? e se ele gritasse e rasgasse suas roupas agora? batesse no peito feito hulk, gritasse feito Tarzan? E pensava tudo isso enquanto dizia pra si mesmo: eu quero ser menino de novo.

A reunião acabou e ele não tivera a coragem de dizer um ai contra aquele projeto  igual a todos outros, afinal ele não estava em condições de perder o emprego, se arriscar. Sentiu-se um fracassado, o melhor daquele dia, foi pisar na lama.     

 

 

 

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MELINA GUTERRES

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